Google ainda envia 87,9% do tráfego de busca, mas buscas por usuário caíram 20% em um ano e o setor já sente a diferença


Em abril de 2025, um executivo da Apple chamado Eddie Cue testemunhou num processo judicial que as buscas pelo Google no navegador Safari haviam caído pela primeira vez em mais de vinte anos. O dado passou despercebido pela maioria das coberturas de tecnologia, mas foi o sinal mais concreto até então de que algo estrutural estava mudando no comportamento de busca. Não era um problema de produto nem de reputação. Era comportamental: uma parcela dos usuários havia começado a buscar em outro lugar.

Os dados de 2026 colocam esse movimento em perspectiva. Segundo análise da TechnologyChecker com dados do Cloudflare Radar para o segundo trimestre de 2026, o Google ainda envia 87,9% de todo o tráfego de referência de busca observado globalmente. Os quatro principais sistemas de busca com IA, ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity juntos, responderam por cerca de 0,3% dos cliques no mesmo período. Em volume de tráfego referenciado, o Google não está perdendo. O problema está em outro indicador: segundo dados da SparkToro citados pelo Max Intel, as buscas por usuário no Google caíram quase 20% em um ano, mesmo com o volume total de buscas crescendo 20% no mesmo período. Mais pessoas buscando menos no Google é o sinal que as análises de participação de mercado não capturam.

O que explica essa divergência é o tipo de busca que está migrando. Segundo análise da Trakkr sobre o mercado de busca com IA em 2026, o Google mantém domínio em buscas navegacionais e locais, como "restaurante perto de mim" ou "site da Receita Federal". O que está sendo desviado para ferramentas como ChatGPT e Perplexity são buscas informacionais e de pesquisa, aquelas que envolvem síntese de múltiplas fontes, comparações e decisões complexas. São exatamente as buscas de maior intenção comercial. O estudo da Semrush sobre tráfego de busca com IA identificou que visitantes vindos de ferramentas de IA convertem 4,4 vezes melhor do que visitantes vindos de busca orgânica no Google. A fatia que está saindo é pequena em volume e desproporcional em valor.

O caso da HubSpot ilustra o impacto concreto para quem depende de tráfego orgânico. Segundo dados compilados pelo QuickSEO com base em Similarweb e Chartbeat, o tráfego orgânico da empresa caiu de aproximadamente 13,5 milhões de visitas mensais em novembro de 2024 para menos de 7 milhões em dezembro do mesmo ano, queda de 70% a 80% do pico, permanecendo nesse nível ao longo de 2025. A empresa é considerada referência em marketing de conteúdo e SEO. O que aconteceu com ela está acontecendo em escala menor com publicações, blogs e sites de conteúdo que dependem do Google como canal principal de distribuição.

A resposta do Google foi integrar o Gemini diretamente nos resultados de busca, transformando o próprio buscador em uma experiência de busca com IA. Segundo a Trakkr, o Google ainda detém 28% do mercado de busca com IA dentro desse segmento específico, o que indica que a empresa está competindo dentro da categoria que ameaça seu modelo original. O movimento muda a dinâmica do mercado publicitário: a empresa começou a testar o formato de "citações patrocinadas" dentro das respostas de IA, onde marcas aparecem como fontes recomendadas dentro de respostas conversacionais, em vez de anúncios de texto separados do conteúdo. É o mesmo deslocamento que o Radar Tech detalhou no artigo sobre publicidade contextual e o fim dos cookies: o modelo de publicidade está se reorganizando em torno de relevância de contexto, não de posição de clique.

Para profissionais de marketing e criadores de conteúdo, a implicação prática é direta: otimizar apenas para o Google em 2026 cobre uma fração menor do comportamento de busca do que cobria há dois anos. Segundo dados do relatório de busca com IA do Goodie para 2026, apenas 14% dos domínios mais citados pelo ChatGPT, Claude, Gemini e Perplexity se sobrepõem entre as quatro plataformas. Cada sistema cita fontes diferentes com lógica de seleção diferente. Aparecer em uma não garante aparecer nas outras.


Sobre a autora

Camila Domingues é publicitária e pesquisadora de tendências digitais. No Radar Tech, escreve sobre inteligência artificial, marketing e tecnologia com foco em aplicações práticas para quem vive e trabalha no mundo digital.

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