Em 1971, o economista Herbert Simon escreveu que "uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção", numa análise sobre como organizações deveriam ser desenhadas num mundo com excesso de dados. Simon estava descrevendo um problema de gerenciamento corporativo. Sem saber, estava nomeando o modelo de negócio que estruturaria as maiores empresas do mundo cinquenta anos depois.
A lógica é direta: quando o produto é gratuito, o usuário é a mercadoria. Plataformas como Facebook, YouTube, TikTok e Instagram não cobram pelo acesso porque não precisam. O que elas vendem para anunciantes é o tempo e a atenção dos usuários, medidos em impressões, cliques e engajamento. O Meta reportou 150 bilhões de dólares em receita publicitária em 2024, com mais de 90% derivado diretamente da atenção dos usuários, segundo dados financeiros oficiais da empresa citados pelo The Panel Station. O Google ultrapassou 200 bilhões de dólares em receita de anúncios no mesmo período, segundo os registros do Alphabet na SEC. As cinco maiores plataformas combinadas geraram mais de 400 bilhões de dólares em 2024 exclusivamente a partir do tempo que usuários passaram em seus sistemas, segundo análise do mesmo relatório.
O modelo funciona porque o tempo humano tem uma característica que nenhum outro recurso tem: não se recupera. E as plataformas foram engenheirizadas especificamente para capturar o máximo possível dele. A pessoa média no mundo passou 6 horas e 54 minutos por dia em frente a telas em 2025, o equivalente a 44% das horas em que está acordada, segundo o DataReportal Digital 2026 Global Overview Report citado pelo Timeeting. Nos Estados Unidos, essa média sobe para 43 horas e 55 minutos por semana. O custo econômico do tempo de tela não gerenciado entre trabalhadores americanos foi estimado em 151 bilhões de dólares anuais, incluindo 50,6 bilhões em perdas de produtividade, segundo relatório conjunto da AOA e do Deloitte Economics Institute publicado em janeiro de 2024.
O impacto mais documentado não é financeiro. É cognitivo. O Microsoft Work Trend Index 2025, baseado em análise de trilhões de sinais de produtividade entre 31 mil trabalhadores em 31 mercados, identificou que funcionários recebem uma notificação de reunião, email ou mensagem a cada dois minutos durante o horário de trabalho, somando aproximadamente 275 interrupções por dia, segundo dados do próprio relatório da Microsoft citados pelo Speakwise. Cada interrupção fragmenta o bloco de concentração que estava em andamento. Tarefas que exigem pensamento profundo, como escrita, análise e estratégia, dependem de períodos contínuos de foco que esse ritmo de interrupção sistematicamente impede.
A resposta do mercado a esse problema revela o paradoxo completo da economia da atenção: o setor de redução de tempo de tela foi avaliado em 12,87 bilhões de dólares em 2025, com projeção de crescimento para entre 45 e 68 bilhões até 2034, segundo dados da Precedence Research e Fortune Business Insights compilados pelo Blankspaces. Existe agora um mercado relevante e crescente vendendo ferramentas para recuperar o recurso que outro mercado, igualmente relevante e crescente, está sistematicamente capturando. O mesmo modelo econômico que monetiza atenção está gerando a demanda pelo produto que ajuda a protegê-la, o que é uma demonstração precisa de como a economia da atenção funciona: ela cria o problema e vende a solução. O Radar Tech documentou o mecanismo técnico por trás dessa captura no artigo sobre publicidade contextual e o fim dos cookies: sistemas que identificam contexto e momento de maior receptividade para entregar a mensagem certa no instante em que o usuário está mais suscetível a responder a ela.
Sobre a autora
Camila Domingues é publicitária e pesquisadora de tendências digitais. No Radar Tech, escreve sobre inteligência artificial, marketing e tecnologia com foco em aplicações práticas para quem vive e trabalha no mundo digital.
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