Apple é a marca mais valiosa do mundo com 470 bilhões de dólares e seu melhor trimestre da história veio de um lançamento que Tim Cook chamou de "simplesmente impressionante''


Em setembro de 2025, a Apple nomeou seu evento de lançamento anual como "Awe dropping", combinação de awe, que em inglês significa admiração, com airdrop, funcionalidade do ecossistema da empresa. O nome do evento, dois palavras sem nenhuma informação sobre o produto, gerou cobertura imediata em veículos de tecnologia do mundo inteiro. Nenhum detalhe sobre o iPhone 17 havia sido revelado. A antecipação foi construída por um trocadilho no convite. Esse é o nível de atenção acumulada que a Apple opera antes de qualquer câmera aparecer no palco.

O resultado financeiro do lançamento subsequente está nos relatórios oficiais da empresa: o primeiro trimestre fiscal de 2026, encerrado em dezembro de 2025, gerou 143,8 bilhões de dólares em receita, crescimento de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior e o melhor trimestre da história da companhia, segundo dados do próprio balanço da Apple citados pela Business Model Analyst. Tim Cook descreveu a demanda pelo iPhone 17 como "simplesmente impressionante", com vendas na China crescendo 38% para 25,5 bilhões de dólares no trimestre. A Apple encerrou o exercício fiscal de 2025 com receita recorde de 416,2 bilhões de dólares e foi classificada como a marca mais valiosa do mundo pelo Interbrand 2025, avaliada em 470,9 bilhões de dólares.

O mecanismo por trás desses números não começa no palco do evento. Começa no silêncio que precede o evento. A Apple mantém controle de informação sobre produtos com uma consistência que poucos fabricantes conseguem replicar em escala. Vazamentos acontecem, mas são gerenciados como parte da narrativa de antecipação, nunca desautorizados de forma que reduza o interesse no anúncio oficial. A empresa raramente confirma produtos antes do evento, raramente compete em especificações técnicas comparativas e sistematicamente anuncia novas categorias antes de ter todos os problemas resolvidos, criando espaço para que a iteração futura seja lida como progresso, não como correção. O Vision Pro, lançado em fevereiro de 2024 com posicionamento de "computação espacial", teve demanda aquém das projeções iniciais do setor. A resposta da Apple foi remover as funcionalidades atrasadas do marketing ativo em vez de pré-anunciar revisões de prazo, segundo análise da everything-pr.com com base em comunicados oficiais da empresa. O resultado foi que a narrativa de inovação permaneceu intacta enquanto o produto era recalibrado.

O que a Apple competiu ao longo de décadas não foi em especificações, mas em significado. Campanhas como "Heartstrings", lançada em dezembro de 2024 para o AirPods Pro 2, contam a história de um pai que consegue ouvir a filha cantar pela primeira vez usando o recurso de audição do dispositivo. O produto aparece na campanha como consequência da história, não como objeto central da narrativa. A campanha Shot on iPhone, que segundo estimativas de mercado compiladas pelo AMW Group gerou mais de 4,2 milhões de posts em 2024, transformou os próprios usuários em produtores de conteúdo publicitário sem que nenhum deles fosse contratado para isso. É o mesmo mecanismo que o Radar Tech documentou no artigo sobre o papel do storytelling no branding: a história mais poderosa é a que o cliente conta por conta própria porque viveu algo que valeu ser compartilhado.

A base de 2,5 bilhões de dispositivos ativos que a Apple opera globalmente é o que torna o modelo difícil de replicar por qualquer concorrente. Cada lançamento de produto tem como audiência primária uma base instalada que já está dentro do ecossistema, já tem dados, fotos e hábitos armazenados em serviços da empresa e já pagou o custo psicológico de migrar para o ambiente Apple uma vez. O custo de sair aumenta a cada novo dispositivo integrado. O lançamento que parece ser sobre um telefone novo é na prática um reforço de fidelização para quem já está dentro e um argumento de entrada para quem ainda está fora, duas funções de marketing executadas simultaneamente pelo mesmo evento, sem separação de orçamento ou mensagem.


Sobre a autora

Camila Domingues é publicitária e pesquisadora de tendências digitais. No Radar Tech, escreve sobre inteligência artificial, marketing e tecnologia com foco em aplicações práticas para quem vive e trabalha no mundo digital.

Radar Tech – Tecnologia descomplicada para o seu dia a dia

Gostou deste conteúdo? Compartilhe com alguém que precisa ficar por dentro do que está mudando no digital. E se quiser mais análises como essa, acompanhe o blog.