Os óculos Ray-Ban Meta já venderam mais de 7 milhões de unidades e concentram mais de 80% de todo o mercado de óculos inteligentes com IA, segundo reportagem do Correio Braziliense. O produto existe desde 2021, mas só teve o primeiro salto relevante de receita neste ano.
A Alibaba lançou os óculos Quark com IA na China em novembro. A Apple deve revelar seu próprio modelo em 2026, com lançamento previsto para 2027, segundo a Bloomberg. O Google confirmou parceria com Warby Parker, Samsung e Gentle Monster, com primeiro produto esperado ainda em 2026.
As ações da EssilorLuxottica, fabricante ligada à Meta na parceria dos óculos, caíram 4,8% no dia seguinte ao anúncio, e as da própria Meta recuaram 1%, segundo cobertura financeira do evento. Pesquisadores estimam que até 100 milhões de pessoas podem comprar um par nos próximos anos, se os concorrentes replicarem o desempenho da Meta.
O problema é que o crescimento comercial está andando junto com uma crise de privacidade cada vez mais documentada. A câmera dos óculos é quase invisível na armação, sinalizada apenas por um pequeno LED. Relatos à BBC mostram mulheres sendo filmadas secretamente em praias, lojas e ruas, sem consentimento, segundo reportagem do Correio Braziliense.
As vítimas têm pouco recurso legal, já que filmar em espaço público costuma ser considerado lícito. Uma mulher relatou que, ao pedir a remoção de um vídeo gravado sem seu conhecimento, foi informada de que isso seria "um serviço pago".
Adesivos para cobrir o LED passaram a ser vendidos, junto com serviços que prometiam desativá-lo de forma permanente. Em 7 de julho de 2026, a Meta distribuiu uma atualização obrigatória que desliga a câmera caso detecte adulteração no LED, segundo análise da AdGuard.
Trabalhadores no Quênia, contratados para revisar vídeos captados pelo dispositivo e gerar dados de treinamento de IA, relataram ter sido expostos a conteúdo gráfico sem saber previamente que seriam expostos a esse tipo de material, o caso já gerou processos judiciais.
Reguladores europeus também colocaram o produto sob escrutínio, principalmente pela falta de controle real que terceiros têm sobre quando estão sendo gravados, segundo o IstoÉ Dinheiro. É o mesmo tipo de tensão que já existe em torno de dados coletados para publicidade digital, só que agora capturados fisicamente, em tempo real, por qualquer pessoa ao seu redor.
O padrão que se repete em cada nova geração desses dispositivos é o mesmo: a tecnologia avança mais rápido que a norma social e a regulação capazes de acompanhá-la, e a correção só vem depois que o problema já apareceu em escala pública.