62% dos brasileiros consomem notícias pelo celular, mas pesquisa revela que a maioria não sabe distinguir o que é real

Todo mundo lembra onde estava quando parou de comprar jornal

Um dia você estava lendo o caderno de esportes no café da manhã, no outro estava rolando o feed às 7h da manhã ainda deitado, tentando entender o que tinha acontecido no mundo enquanto você dormia. O jornal impresso não morreu porque ficou ruim. Morreu porque o celular estava mais perto.

Essa transição parece óbvia agora, mas ela carrega consequências que ainda estamos processando.

Segundo o Reuters Institute Digital News Report 2024, 62% dos brasileiros acessam notícias principalmente pelo smartphone, e redes sociais ultrapassaram os portais de notícias como principal porta de entrada para informação no país. 

Foi a lógica inteira de como uma notícia chega até você, por que ela chega e o que acontece depois que você lê.

A curadoria que ninguém pediu para fazer

Tinha uma função que o jornalismo tradicional exercia de forma silenciosa e que a gente só percebeu quando ela sumiu: a curadoria editorial. Um editor decidia o que entrava na primeira página, o que virava manchete, o que ficava no rodapé. 

O algoritmo que substituiu esse editor não tem nenhuma dessas coisas. Ele tem uma métrica: engajamento. E engajamento, como qualquer profissional de conteúdo sabe, não é sinônimo de qualidade ou relevância. 

É sinônimo de reação emocional. Raiva, medo e indignação performam melhor do que análise. Sempre.

Uma matéria do Nieman Lab de Harvard mostrou que notícias com linguagem emocional negativa recebem até 67% mais compartilhamentos do que notícias neutras sobre o mesmo fato. 

Não porque as pessoas sejam manipuláveis. Porque o sistema foi desenhado para amplificar exatamente isso.

O caso que mudou como a indústria pensa sobre velocidade

Em abril de 2013, durante o atentado na Maratona de Boston, o subreddit r/FindTheBostonBombers reuniu milhares de usuários tentando identificar os responsáveis em tempo real, combinando fotos públicas e "análise colaborativa". 

O resultado foi a identificação errada de Sunil Tripathi, um universitário que havia desaparecido semanas antes. Sua família, já desesperada, foi bombardeada por mensagens de ódio enquanto os veículos de imprensa tradicionais, com a pressão do "jornalismo cidadão" nas redes, chegaram a replicar a desinformação antes de verificar.

Sunil Tripathi foi encontrado morto dias depois, por afogamento. Não havia relação com o atentado.

O caso virou referência obrigatória em faculdades de jornalismo porque expôs algo que a euforia da "informação em tempo real" estava encobrindo: velocidade sem checagem não é jornalismo. É rumor com interface bonita.

O que o The New York Times e o BuzzFeed ensinaram um ao outro

Por volta de 2014 e 2015, havia uma narrativa dominante: o jornalismo "sério" estava morrendo e o jornalismo "viral" era o futuro. O BuzzFeed era citado em todo painel de inovação como modelo. Listas, quizzes, conteúdo compartilhável. Distribuição nativa para redes sociais. Redação que entendia o algoritmo.

O que aconteceu nos anos seguintes é mais interessante do que a narrativa original. O BuzzFeed encerrou sua divisão de notícias em 2023, demitindo cerca de 180 jornalistas. O modelo que dependia inteiramente de tráfego vindo de plataformas externas entrou em colapso quando o Facebook reduziu o alcance orgânico de links. Sem audiência própria, sem assinantes, sem base.

O New York Times, nesse mesmo período, ultrapassou 10 milhões de assinantes digitais em 2023 . Não porque resistiu à tecnologia, mas porque usou tecnologia para construir algo que o BuzzFeed nunca priorizou: um relacionamento direto com o leitor que não dependia de algoritmo de terceiros para existir.

A lição não é que o jornalismo lento venceu o rápido. É que jornalismo sem audiência proprietária é jornalismo alugado.

O que mudou para quem consome, não só para quem produz

Tem uma coisa que raramente entra nessa conversa: o custo cognitivo do novo modelo recai inteiramente sobre o leitor.

No jornalismo tradicional, a verificação era um processo interno às redações. O leitor consumia o resultado. Hoje, em teoria, qualquer pessoa pode acessar fontes primárias, cruzar dados, checar declarações. Na prática, isso exige tempo, método e letramento informacional que não são distribuídos igualmente. 

Quem tem esses recursos está, de fato, mais bem informado do que qualquer geração anterior. Quem não tem está mais exposto à desinformação do que jamais esteve.

O Reuters Institute também apontou que 36% dos brasileiros afirmam evitar notícias ativamente, fenômeno chamado de "news avoidance". Não é apatia. É sobrecarga. Quando o volume de informação é alto demais e a confiança nas fontes é baixa demais, o comportamento mais racional é desligar.

Onde isso deixa o jornalismo daqui para frente

A IA está entrando nessa equação de formas que ainda não terminamos de avaliar. Ferramentas de geração de texto já são usadas por veículos como Associated Press para produzir automaticamente matérias de resultados financeiros e esportivos desde 2014. 

O Washington Post usou um sistema próprio chamado Heliograf para cobrir eleições locais em escala que uma equipe humana não conseguiria. São aplicações legítimas, com supervisão editorial, em conteúdo de baixo risco interpretativo.

O problema começa quando essa lógica migra para conteúdo que exige julgamento, contexto e responsabilidade. Um algoritmo pode publicar mil matérias por dia. Não pode responder pelo que publicou.

O jornalismo que vai sobreviver a essa transição provavelmente não é o mais rápido nem o mais barato. É o que construiu uma razão para o leitor confiar nele especificamente. Isso parece simples. E é exatamente o que a maioria dos veículos ainda não sabe fazer.